Atrás do Crime - conquistando os leitores do Brasil

Atrás do Crime - book trailer

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

ÍnTiMo DeMaIs


   Cresci ouvindo meu pai dizer que eu não era melhor do que ninguém. Demorou para aprender que ninguém era melhor do que eu.

   Diante da situação caótica em que o Brasil se encontra, penso no essencial que deixamos de aprender. Quer dizer que sou de bem, desde que haja policiamento nas ruas?

   Não entendo. Impossível compreender. Alguns dizem: “É porque você não está nesta situação”. Será que não estou? Será que nunca estive?

   Comecei a trabalhar fora aos 16 anos de idade. Antes disso, contudo, já trabalhava em casa, na confecção de calçados do atelier de meu pai, num período que antecedeu uma crise que devastou as fábricas calçadistas do sul do país. Trabalhava duro e cursava o Ensino Médio à noite – fazia todos os trajetos casa-trabalho-casa-escola-casa, de bicicleta, uns prazerosos 17 quilômetros que me obrigavam a manter a forma. Fazia frio (ainda faz) no inverno sulista, muito frio. O vento noturno congelava minhas mãos, até eu descobrir uma versão barata de luvas de couro, que impediam o ar gélido de penetrar a roupa.

   Meu salário, tão reduzido, era investido em educação. Sempre foi assim. Sempre fui assim. Quando me formei no colégio, acho que eu era a única com lágrimas nos olhos. Por ter me formado? Não. Por não ter certeza de que conseguiria pagar a faculdade, a duas horas de distância de onde morava.

   Foi quando soube de um concurso para secretária de escola. Pagavam melhor do que eu ganhava: dois salários. Era minha chance. Estudei (bastante) e passei em primeiro lugar. Daí em diante, a vida foi melhorando. De secretária à professora, de professora à escritora. Meu baixo salário, tenho que dizer, sempre foi revertido nos estudos: curso de inglês, livros, ensino superior, especialização e mestrado. Nada foi gratuito, mesmo porque é quase impossível fazer uma federal e trabalhar concomitantemente. E eu precisava trabalhar. Não só pelos estudos, mas pela alimentação, aluguel, roupa, enfim.  

   Minha história, embora resumida, justifica minha falta de compreensão: por que tanta violência? Latrocínio, saques? Parece que a população só estava esperando a oportunidade para revelar o verdadeiro caráter, ou a falta dele.

   Não pretendo me prolongar, então, termino com um apelo:


Pais e mães, ensinem seus filhos a serem alguém, não a terem algo.  

  O que se tem hoje, envelhece, estraga, se perde. Entretanto, o ser que se forma, transforma, trabalha e luta. Por um mundo melhor, menos degradante. O dinheiro não pode ser, em nenhuma circunstância, melhor do que o próprio ser humano. Mas infelizmente, é ele que está levando o mundo à morte.

   Meu apelo vai aos pais, diretamente aos pais. Porque paguei por meus estudos, mas não pelos valores que aprendi. Esses vieram cordial e diariamente de minha família. Foram gratuitos, e os mais valiosos que recebi na vida. 



Cristiane Krumenauer
Autora de Atrás do Crime; Chamas da Noite; 
Memória, Imaginação e Narração e da série Contos da Namíbia








segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A CoR dA (In)FeLiCiDaDe



   Num país distante, Julliette era uma menina acostumada a ter a admiração de todos. Bonitinha, rica e inteligente, era cercada de atenção e mimos pela família, professores e colegas. Oposto a tudo isso, estava Sarah - feinha, pobre e de inteligência medíocre, a ser tratada sem consideração por seu círculo de relação social.

   Por pertencerem a universos diferentes, jamais se encontrariam não fosse a mãe de Sarah trabalhar na residência de Julliette, e os patrões financiarem os estudos da pequena na mesma escola da filha. A intenção foi boa, mas só fez ressaltar a posição de inferioridade de Sarah, cercada de crianças tão diferentes dela.

   A infância de exclusão garantia uma vantagem que acabou desaparecendo na fase adulta: Sarah se reconhecia diferente dos demais, mas não compreendia por quê. A mãe não lhe explicava com palavras, apenas com os olhos lacrimejantes de consternação.

   Mas um dia, Sarah entendeu. Foi uma revelação dolorosa. Ocorreu quando já tinha 20 anos, no trabalho como secretária. Um dos clientes disse que estava com muita pressa e que ela devia chamar o gerente o mais breve possível.

   - Sinto muito, senhor, o gerente está em reunião e só poderá atendê-lo daqui a uma hora.

   - O quê? Sua branquela de olhos azuis, você não está entendendo que estou com pressa?

   Aquelas palavras fizeram-na despertar para a realidade. Então era aquilo? A diferença entre ela e Julliette, em todos aqueles anos, não era apenas econômica? Acima de tudo, a diferença estava nas características físicas: ela, de olhos azuis e cabelos castanhos; e Julliette, uma linda africana de pele e olhos negros? Sarah teve que suportar o insulto e imaginou se, em algum lugar do mundo, aquela realidade preconceituosa era diferente. Haveria um país em que os brancos eram iguais aos negros? Ou eram tratados melhor do que os negros?

   Sarah voltou a si quando o próximo cliente, um poderoso e atraente homem negro, cheio de dentes brancos e impecáveis, olhando para o relógio de ouro, perguntou-lhe sorridente se o gerente iria demorar.

   - N... não – ela conseguiu dizer, impressionada. 

   A resposta era uma mentira, o gerente iria demorar bastante tempo. Ainda assim, Sarah achou que seria interessante fazer aquele estranho esperar na sala dela por quase uma hora... "Isso, se ele não se importar com minha cor, tão horrivelmente clara."





Por Cristiane Krumenauer
Autora de Atrás do Crime (Giostri, 2016), entre outros livros de suspense.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Histórias de Sítio e outras Estórias


   Meu pai é um perfeito contador de causos. Todos reais, segundo ele, e acredito que sejam mesmo. Numa dessas histórias, ele era um adolescente, cavalgando para casa por uma ruazinha de chão, estreita, iluminada pela lua (sim, não havia e ainda não há luz naquela estrada). Para que a história seja bem-detalhada, melhor dizer que ele morava no meio do nada, entre sítios nem sempre ocupados e o vizinho mais perto residia a incríveis dez quilômetros. Talvez mais, quem é que mediria as distâncias naquele fim de mundo?

   Então, numa noite em que era guiado pelo cavalo, pois ele mesmo não enxergava um palmo na frente do nariz, eis que o sinistro ocorreu.

   Num trecho rodeado por capim Santa-Fé (meu pai o sabia pelo farfalhar específico das folhas ao vento), o cavalo de súbito parou.

   “Vem bicho grande por aí”, pensou, achando por bem soltar as rédeas para que o cavalo assumisse o controle, caso fosse necessária uma fuga. O cavalo deu um passo à frente e se arrepiou todo.  A respiração do animal ficava mais ofegante à medida que se aproximava do capinzal. Passo por passo era dado com muito receio, até que disparou, correndo sem controle.

   O cavalo só parou em casa. O pelo úmido, puro suor.

   “Que bicho que assustou o cavalo, pai?”

   “Até hoje não sei. Não vi nada... mas que era grande, ah, isso era!”


  

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Casa Assombrada de Memórias

   No quarto dela, havia um guarda-roupas muito antigo. Era escuro, gigantesco e assustador. Aninha jamais punha suas roupas nele. Temia que fosse devorada pelo móvel. Então, simplesmente delegava a tarefa à avó. A idosa esboçava um sorriso chupado quando via a bagunça no quarto e compreendia o temor de Aninha, tomando para si a responsabilidade de guardar tudo.

   À noite, quando Aninha ia para o quarto e se deitava na cama, ao lado do roupeiro maligno, sua imaginação disparava e ela temia que o móvel fosse ganhar vida.

   Era difícil viver na casa da avó depois da morte do pai e da mãe. Aquele lugar pertencia a uma outra história; não a dela. E o roupeiro era assombrador; assim como o quarto, a cozinha e todo o resto, mobiliado com móveis carregados de vidas passadas – velhos e sombrios, como se carregassem pesadelos de outras gerações. A sensação não podia ser diferente: até as paredes eram horripilantes, ornamentadas com retratos de pessoas já mortas. Todas, sem exceção, haviam partido para o além, mas continuavam sorrindo maquinalmente, como se, antes de partirem, tivessem que registrar que a vida foi boa, porém, a morte existia.

   Aninha chorava às escondidas. A avó e sua idade avançada representavam mais um fim à espreita.

   Um dia, decidiu fugir daquele lugar. Aninha precisava de paz, de sossego. Acabaria enlouquecendo naquela casa, vivendo entre os mortos e dormindo diante daquele roupeiro. Ela desapareceu no ano de 2017, para nunca mais voltar.

   Lá fora, acabou descobrindo que o perigo real estava nos vivos.