Atrás do Crime - conquistando os leitores do Brasil

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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

MINHA VISITA À CIDADE-FANTASMA




Era feriado prolongado na Namíbia. Como já tínhamos conhecido o norte do país, decidimos nos aventurar para o sul, até uma cidade chamada Lüderitz.

Preparação para a viagem de 7 horas e 47 minutos, de Windhoek até lá, com vários quilômetros apenas de deserto: muito lanche e muita água. Afinal, se o carro enguiçar, temos que esperar algumas horas até outro veículo passar e oferecer ajuda. E em meio ao nada, sem sinal de celular, com a possibilidade de interrompermos a jornada devido à tempestade de areia que cruza o asfalto, aprendemos que o melhor é nos precaver.

E assim, partimos. O jipe branco deslizando na rodovia retilínea em pleno deserto. Paramos em um restaurante no caminho, comemos apetitosas coxinhas das asas – com gordura suficiente para manter o colesterol alto por vários dias –, bebemos refrigerante cor-de-rosa – que ricochetearia qualquer diabético –, e  voltamos esbaforidos para o carro, ligando o ar-condicionado no máximo antes que derretêssemos no caldeirão do lado de fora. Sério: quem vive em regiões assim consegue sobreviver a qualquer coisa! Qualquer coisa!

Como se não bastasse o calor e a alimentação maléfica, meu filho, à época com 3 anos, começou a se inquietar na cadeirinha. Meu pequeno já tinha passado as primeiras horas da jornada dormindo e, à tarde, queria liberdade, queria sair correndo pelo deserto até ser soterrado de areia com as rajadas de vento. Fiz todas as brincadeiras que conhecia para convencê-lo a se acalmar, e inventei outras mais. No fim, quem estava exausta era eu – o que não significa que eu conseguiria dormir. Dormir, na Namíbia, passou a ser um obstáculo praticamente intransponível. Só depois de comprar potentes humidificadores conseguimos resolver o irrelevante problema com a insônia.

Sete horas depois, quando todas as músicas que tínhamos já tinham sido tocadas; e quando meu filho já tinha se convencido de que chorar não o teletransportaria de volta para casa, é que chegamos à impressionante cidade-fantasma Kolmanskop.

Kolmanskop – a cidade cujas casas foram sendo engolidas pela areia após serem abandonadas por seus donos – é o perfeito cenário de um filme de suspense. Muitas construções não suportaram os anos e foram se entregando ao deserto, confundindo-se com ele. Até caminhar de uma casa à outra é missão para quem tem bom preparo físico, pois os pés afundam na areia, deixando claro que se você deixar, vai ser engolido também.

Depois de conhecer a cidade-fantasma sob o calor de 40 graus, partimos para Lüderitz. A distância era de apenas 13 quilômetros, mas o vento gelado do Oceano Atlântico fez a temperatura cair para 12 graus!

Desembarcamos do jipe, batendo o queixo de frio, e tentamos conhecer a cidade a pé. Àquela altura, não é preciso dizer que logo desistimos do intento, porque preferimos nos refugiar num café e escapar do vendaval violento que faz os moradores manterem janelas e portas cerradas.

Dormimos cedo naquele dia. Ou melhor, tentamos dormir, num hotel que parecia adentrar o mar.

O clima põe à prova, mas a paisagem é inesquecível. Fica na memória. Por isso, escrever o conto Kolmanskop – Assassinato na cidade-fantasma foi um dos trabalhos mais fáceis para mim. Afinal, eu senti na pele o que meu personagem sentiria. O resultado foi uma trama cheia de suspense e, lógico, com muita areia (risos) do deserto.


Foto tirada para ser a capa do livro. 


Interior de uma residência sendo invadida por areia ao longo dos anos



Em frente a um casarão abandonado


  




KOLMANSKOP - ASSASSINATO NA CIDADE-FANTASMA é o livro 4 de Contos da Namíbia. Não é necessário ler os livros anteriores, eles não são uma sequência. Está disponível no link: 



Bata um papo com a autora. Gosto muito de conversar:





Luderitz Nest Hotel