Atrás do Crime - conquistando os leitores do Brasil

Atrás do Crime - book trailer

sexta-feira, 7 de março de 2014

CHAMAS DA NOITE


EM BREVE, ROMANCE POLICIAL NAS LIVRARIAS DE TODO O BRASIL! 
 "As chamas, em questão de segundos, dominaram o local, gerando pânico naqueles que, inutilmente, procuravam uma saída. Por todo lado, fumaça. Antes mesmo de a luz se apagar por completo, a visibilidade era mínima. Somente uma espessa camada de fumaça negra era nitidamente percebida: ela chegava agressiva, invadia todas as divisórias, incluindo os banheiros, onde alguns ingenuamente acreditavam poder se esconder. Era fatal: a fumaça negra era uma terrível assassina, espalhava o rastro da morte a seus pés.
Quando nossos amigos e alguns bombeiros conseguiram, do lado externo, derrubar parte da parede para que, finalmente, saíssemos do local do incêndio, fiquei aliviado. Ajudei minha sogra a sair com vida, depois retornei, ajudando ou quase empurrando meu sogro para fora. Ele queria ficar ali, não sei se só para ajudar quem precisasse ou se para ser consumido pelas chamas – aquele lugar era a vida dele sendo queimada."

quarta-feira, 5 de março de 2014

O CARNAVAL





        Milhares de foliões se reuniam em todas as partes do Rio de Janeiro. Como sempre ocorria todos os anos, o carnaval não era sinônimo de feriado, de diversão ou de descanso para seu Carlos e os colegas. Ao contrário, esse era um dos períodos em que mais trabalhavam. Seu Carlos, homem de cinquenta anos aparentando ser muito mais velho do que realmente era, despertava às 4 horas da manhã, trajava seu uniforme surrado – chapéu, camiseta e calças cor-de-laranja, um sapato preto para contrastar – e ia direto para o ponto de ônibus. Às 5 horas, o coordenador distribuía os locais a serem varridos e lá iam, ele e os demais garis, num compasso alaranjado, com a expectativa de serem mais fortes do que o sol quente de verão.
A cena era sempre a mesma: o dia posterior ao carnaval era um verdadeiro pesadelo. Seu Carlos varria as centenas de milhares de latas de cerveja que desconheciam o lugar certo onde deveriam ter caído – no lixo. Varria também papeis, restos de comida, garrafas e até retalhos de fantasias. Enquanto varria todos aqueles restos, seu Carlos se lembrou do primeiro carnaval que passara sendo um gari. A esposa, impaciente, queria sambar e o marido não a acompanharia. As filhas, aflitas, sambariam sem nenhum traje adequado, porque não tinham dinheiro para a fantasia. Foi então que o pai voltou para casa, trazendo uma imensa fantasia que achara enquanto limpava os desperdícios da humanidade. Houve gritos de êxtase e alegria, as filhas colocando a roupa e mirando-se no espelho, encantadas com o presente do pai. Como havia apenas um traje, elas se revezariam: a primeira noite seria da mais velha.
Seu Carlos levou a mão à testa, enxugando o suor que teimava a escorrer em seus olhos, provocando uma ardência que se transformava em lágrimas, e logo voltava a varrer. Era um homem repleto de lembranças. E como não ser? Se cada varrida nas latas de cerveja e nos resíduos esquecidos era como se varresse as memórias de cada folião que passara por aquele local na noite anterior? Seu Carlos, então, sentia-se como o responsável por limpar toda a sujeira da cidade e, fazendo isso, também estaria limpando todas as más lembranças do carnaval, inclusive as suas próprias.
Por que se sentia assim? Qualquer um em seu lugar entenderia. A filha mais velha, na primeira noite de carnaval, foi quem trajou a fantasia. Maquiou o corpo todo com glitter e mostrou o resultado ao pai:
- Você parece uma princesa, Selene!
Depois saiu com as amigas, cantando eufóricas, descendo as escadarias do morro, embora os relâmpagos prometessem uma forte tempestade.
- É só chuva de verão – falou a mãe, despreocupada.
O céu desabou naquela noite sombria e Selene, nem no dia seguinte, nem nunca mais, voltou a aparecer. Seu Carlos agora sentiu um tecido prender-se na vassoura, impedindo-o de prosseguir com seu trabalho. Abaixou-se e o removeu com cuidado para não rasgá-lo. Trava-se de um tecido de seda. Por coincidência, tinha as mesmas cores da fantasia que Selene havia usado na noite em que desaparecera. Por um momento, levantou-se e olhou ao seu redor, na esperança de reencontrá-la. Nada. Aquilo já era passado, um passado que algum gari, assim como ele, já deveria ter varrido para longe de seus olhos e de sua vida.
Ao meio-dia, quando seu Carlos se juntava aos demais colegas para o almoço e, posteriormente, para uma soneca em meio à praça, uma reunião foi feita. Seu Carlos mal ouvia Juvenal, o líder do grupo, falando. O que pôde entender era a respeito de fazerem uma paralisação ou greve, coisa assim. Como não compreendeu, retornou ao trabalho depois do cochilo de 15 minutos, mesmo não avistando mais colega de trabalho nenhum.
Seu Carlos olhou para a imensidão de lixo e sujeira espalhada pelas ruas por causa da greve dos garis. Não queria ir para casa, ver os olhos da mulher a incriminá-lo por ter levado a maldita fantasia para as filhas, e, resignado, pôs-se a varrer. Varria com intensidade, queria remover todas as lembranças terríveis deixadas para trás numa lata de cerveja, num pedaço de tecido, num objeto qualquer.
Varria e varria, pois varrendo, seu Carlos acreditava que poderia limpar toda a sujeira da humanidade.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

LAS FARC: O AMOR E A GUERRILHA



      Sempre ficava pensativa depois de assistir a filmes de guerra, em que o mocinho parte para a batalha num país distante, deixando sua amada à mercê do tempo e da saudade. O mocinho, igualmente com o coração partido, escreve-lhe cartas – a amada, na verdade, serve como seu ponto de apoio, é o motivo pelo qual deve permanecer vivo a cada dia, após lutas e mais lutas em que perde amigos e companheiros. O rompimento geralmente acarreta um desequilíbrio e o herói sofre tanto que deixa de se importar com a própria sobrevivência naquele cenário de horror e solidão.
      Por que eu ficava pensativa? Bem, conheço uma história real que foge completamente a esses padrões hollywoodianos. Trata-se de um amigo meu que conheci em viagem à Colômbia. Era militar, e como vocês podem presumir, um militar na Colômbia tem que enfrentar a temida Farc, conhecida por desestabilizar o governo e causar graves dores de cabeça nos presidentes. Há os que defendem os ideais políticos das Farc, mas não estou aqui para tratar disso, e sim, para contar uma história.
      Como ia dizendo, muito da visão hollywoodiana é comovente e romântica. Pena que a realidade não seja tão utópica assim. Meu amigo, cujo nome vou substituir por Capitão Luís, de tempos em tempos era enviado às batalhas contra o grupo das Farc e de lá só retornava a cada seis meses.
      - ¡Te quiero mucho, mucho! – dizia ele à amada.
     - ¡Vuelvas, mi amor! Me hace falta estar contigo – respondia ela a cada despedida.
      Era uma cena bonita e também comovente. Já, nas batalhas, a vida do capitão era cruel. Os guerrilheiros, avisados da presença do exército, às vezes, fugiam. Outras vezes, porém, o confronto era inevitável. Capitão Luís via amigos feridos, alguns mortos, outros mutilados por bombas previamente armadas em locais estratégicos. Os que tinham esperanças de se salvar ou de salvar um braço ou perna eram enviados de helicóptero ou aeronave para o hospital militar de Bogotá. Essa era a rotina terrível de meu amigo e, para esquecer tanto sangue, compreendam, é necessário alguns divertimentos, alguns envolvendo mulheres.
      Enquanto isso, na distante e agitada capital Bogotá, a amada não podia deixar de viver sua vida. A saudade era tanta que Inês, é como irei chamá-la neste conto, precisava sair com as amigas à noite, frequentar os bares iluminados, dançar cumbia e beber alguma cerveja. Inês não se sentia atraída pelos colombianos, exceto por Capitão Luís, e tinha uma queda imensa por estrangeiros. Com o corpo sensual e os cabelos longos cacheados, conseguia atraí-los e a solidão da distância podia ser substituída por beijos calientes sob o luar.
      Como estava lhes dizendo, uma versão um pouco diferente da dos filmes de guerra, não acham? Bem, a essa altura, vocês devem estar torcendo para que eu diga que, no final de todo o pesadelo da guerra, ambos os corações, feridos pelas traições e distâncias, acabaram se arrependendo e se perdoando, vivendo felizes para sempre, certo? Bem, em parte, sim.
      Quando meu amigo foi promovido a um escalão mais alto, pôde cumprir com suas funções na própria capital Bogotá, não necessitando mais enfrentar a guerrilha. Major Luís, esse era seu novo posto, e Inês se casaram. A rotina comum do casal era maçante, mas nada que se comparasse ao terror das batalhas. Uma noite, o major decidiu convidar o secretário do diplomata americano para um jantar em sua casa. Agora que ele fazia parte de um escalão mais alto, nada mais natural que estabelecer uma boa rede de contatos e ele sabia que um secretário sempre tinha muito a dizer:
      - O governo americano não vai mais apoiar se a Colômbia continuar fazendo vistas grossas para os crimes de guerra – dizia ele, entre um nacho e outro, trazido por Inês, que com eles bebericava uma cerveja.
      Os jantares foram outras vezes repetidos. Quando não era um jantar, era um happy hour no fim de tarde.
      - Nós vamos continuar o contato com um simples secretário? – perguntava Inês, demonstrando não estar nada interessada no americano.
      - É só por um tempo. Além disso, o cargo em que estou não é suficiente para ser amigo direto do diplomata.
      E assim, a sucessão de jantares e encontros continuou. Continuou até ser interrompida bruscamente pelo desaparecimento de Inês. Major Luís, aflito, não queria acreditar no bilhete que tinha nas mãos: “Enjoei desta vida! Melhor quando nos víamos somente a cada seis meses. Vou sair de férias para Cartagena por um mês, não tente impedir. Depois, quem sabe? Adeus”.
      Meu amigo estava estarrecido diante das palavras frias da mulher e perguntava a si mesmo se ter deixado a luta armada em troca de um serviço burocrático tinha sido a melhor escolha. Estava abatido e não podia conversar com outros militares a respeito de seu sofrimento, era uma questão de orgulho. Então, lembrou-se do secretário americano e sentiu que aquele seria o ombro amigo ideal para desabafar.
      Como sempre, nos finais de tarde, chovia em Bogotá. O major pegou o guarda-chuva, tomou as chaves do carro e foi até a embaixada americana. Estacionou no lado externo e acabou se molhando um pouco quando o guarda-chuva rasgou diante de uma rajada de vento. Entrou no edifício, identificou-se ao vigilante e foi autorizado a subir ao terceiro andar. Lá, uma secretária ruiva, que falava um espanhol terrivelmente enrolado, deu-lhe a frustrante notícia:
      - O secretário? Sinto muito, está de férias.
      - Férias? – perguntou, pensando ser apenas uma coincidência.
      - Parece que foi para Cartagena. Quem de nós não gostaria de passar as férias por lá, não é mesmo?
      Depois do episódio, não é nem preciso falar que meu amigo deixou sua vida burocrática em Bogotá para trás, não é mesmo? Hoje, faz parte de um batalhão de fronteira e sorri, em êxtase, toda vez que pressente a proximidade do inimigo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

MATERNIDADE AVASSALADORA


       Nada mais difícil, e prazeroso, do que ser mãe!

      Durante a gravidez, caminhamos, altivas, sendo admiradas e veneradas por todos que nos cercam. Transparecemos essa superioridade, não com ações egoístas e orgulhosas, mas com uma doçura cândida que parece amenizar todas as dores do mundo. Não há nada que um olhar de mãe não cure. Em meio às chagas, as mães, com suas barrigas imponentes, perambulam e seu olhar complacente vai, aos poucos, cicatrizando todas as feridas. Não existe tristeza no coração de uma mãe e sua única necessidade é o bem-estar do próprio filho.

      Nove meses passados, nasce o bebê e a atmosfera de proteção daquele ser tão inocente, tão indefeso, só vem a aumentar. Na gravidez, essa atmosfera resume-se em falar de tudo o que ocorre com o pequeno: se mexeu, se chutou, se é menino ou menina, se está crescendo... Contudo, ao nascer é que um enigma se inicia e as razões disso, apenas uma divindade seria capaz de explicar. Não é apenas que o bebê necessite de cuidados durante as 24 horas, e sim, as mães que não conseguem se desligar nem pensar em outra coisa a não ser neles. É como se um véu fosse posto para não permitir outra distração a menos que essa envolva o pequeno ser.

      A mãe não dirige, apenas guia o carro com os olhos no retrovisor, verificando se o bebê está em segurança na cadeirinha.

      A mãe não cozinha, apenas prepara as refeições, o olhar confuso, dividido entre as panelas e o filho.

      A mãe não assiste às novelas, apenas se senta por alguns breves e relaxantes instantes em frente à televisão, enquanto o silêncio do bebê que dorme a faz perguntar-se se está realmente tudo bem.

      A mãe não dorme, apenas repousa os olhos enquanto os ouvidos permanecem atentos a qualquer suspiro, a qualquer movimento.

      A mãe não sente dor, pois o sorriso de um filho equivale a milhares de doses de anestesia, fazendo com que se levante sempre e tenha forças para continuar.

      Tudo isso não ocorre somente porque as mães são zelosas ao extremo. É mais do que isso: parece provir da naturalidade, de um instinto irrecusável, impossível não ser assim. Aos poucos, ao passo que a criança cresce, essa atmosfera de proteção vai se tornando mais amena: é preciso que a mãe retome sua vida e que deixe o filho mais independente. Ela sabe disso, ela compreende isso. Contudo, não é fácil! A hora da conscientização de que ambos são dois, e não um só, é um dilema não só para o bebê, que chora assustado e clama por aconchego, mas também para a mãe.

      O rompimento acontece e, tal como o parto, é inesquecível e doloroso.

      Ainda assim, faz parte da vida, é natural e irrecusável. O filho cresce e, agora, já não anda mais ao lado, mas à frente da mãe. Ela não lamenta, antes sorri, a superioridade ainda estampada no rosto.

      Quanto mais tento entender tudo isso, esses elos que se formam naturalmente, esses sentimentos que nos envolvem e dominam, menos palavras me vêm. Talvez porque a explicação seja mesmo divina ou, simplesmente, porque a Mãe Natureza seja perfeita.

      Também sei que haverá os que discordam da minha visão do papel de mãe, no entanto, compreendam: não se trata de um ponto de vista, mas de uma força contra a qual não se pode lutar. Não estou defendendo nenhuma tese, nem procurando coerência como numa argumentação, estou apenas descrevendo de forma simples e direta os mistérios da vida. E se, novamente e com mais veemência, continuam a discordar, creio que é porque a labuta diária não tenha deixado espaço para a Mãe Natureza impor toda sua grandeza e magnitude que avassalam e, nitidamente, transformam a vida de uma pessoa.

 

 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

CONFLITOS NA MESA DA GRANDE FAMÍLIA

Enquanto criança, ouvia os murmúrios de reclamação do fulano, irmão do beltrano, que devia para o sicrano. Todos eram parentes e de todo parente, algo se tinha a dizer. Os boatos se davam em meio às minhas brincadeiras, tanto que não me lembro de detalhe algum, mas certamente a família falava, falava um do outro.
Crescida, na casa de amigas, acontecia o mesmo. Conheci uma prima que desagradara o primo, dizendo que a namorada era egoísta e que não o faria feliz. Quinze anos, porém, passaram-se. O primo estava casado com a namorada egoísta que lhe dera três filhos que, consequentemente, também eram egoístas, na opinião da filha mais velha da prima.
E na sucessão de diz-que-me-diz-que, seguem os conflitos familiares, alguns com motivos seríssimos. Em um dos confrontos, lembro a discussão de filhos em torno do valor que a mãe deveria depositar na poupança mensalmente. A disputa era travada com eloquência, a argumentação pelo valor X ou Y se baseava em dados estatísticos ou em comparações com outras famílias. Enquanto isso, a mãe, já idosa, observava a todos com grande impaciência, tentando, a custo, fazer-se perceber. Vinte minutos se seguiram e o valor estava quase que estipulado, quando finalmente a mãe bradou: “De meu, nenhum centavo! Estou falida. A não ser que vocês façam uma vaquinha...” E a discussão logo findou com cada um a alegar um compromisso diferente.
Por outro lado, alguns murmúrios não têm nenhum motivo aparente, mas se baseiam em premonições ou percepções que ganham maior importância do que devem ter. Por exemplo, uns pressentimentos diziam ao cunhado que a cunhada fazia a cabeça do sogro do irmão mais moço a respeito de seu negócio sujo na Rua do Ouvidor. Apesar dessa confusão de parentesco, o importante aqui é dizer que a cunhada sequer conhecia o sogro e acreditava que o cunhado não tinha toda aquela fortuna como todos (tio, tia, primo, prima, etc., etc.) falavam.
Falatório vai, falatório vem e aquele antigo provérbio “família é família” continua nos dias de hoje, em qualquer lugar do mundo. E apesar da relutância de meu leitor em enxergar um sinal positivo em todos esses conflitos, teimo em apontar que é graças a essas confusões que existe um sentido de universalidade nessa instituição: se estiver longe dos seus e sentir saudades, reúna-se com a família de seus amigos e logo poderá reviver muitos episódios esquecidos.