Atrás do Crime - conquistando os leitores do Brasil

Atrás do Crime - book trailer

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

VeRdAdEs ReVeLaDaS



   D. Sônia era uma velhinha sem filhos, com alguns parentes aqui e ali, e cheia... cheia de dinheiro. A família, repleta de inveja, sequer telefonava no seu aniversário. De certo, pensavam que dinheiro comprava tudo, inclusive o papel de fazer companhia a um idoso.

   - E a D. Sônia? – perguntavam os vizinhos aos parentes da idosa.

   - Tá lá, cheia do dinheiro – era só o que respondiam, como se isso resumisse tudo. Era nítido até certo desprezo na resposta. Parecia que a boa senhora pecava por ter dinheiro, como se fosse algo sujo, algo que ser humano nenhum desejasse ter.

   Os anos foram passando e, obviamente, não traziam consigo nada de melhor a d. Sônia. Seu corpo, cansado; e o coração, sozinho, foram amargando o passar do tempo.

   Um dia, ela caiu doente. Acamada, foi visitada por amigos das redondezas, vizinhos, e até a diarista Albertina largou tudo que fazia para correr até a generosa d. Sônia, que a tirava do aperto várias vezes e abastecia a cozinha de suprimentos para alimentar os numerosos filhos.

   - Ai, d. Sônia, agora a senhora não pode mais ficar nesta casa imensa sozinha. Vou cuidar da senhora, virei todos os dias.

   Albertina se transformou em enfermeira, cozinheira, amiga, filha, enfim... em tudo que d. Sônia precisava. E encheu a mansão com seu falar alegre, rápido e sem correções gramaticais. Contava desde as novelas até as fofocas do bairro, e tanta disposição foi preenchendo o vazio da idosa, que logo se recuperou e pôde voltar à rotina com saúde dobrada.

   Os parentes logo ficaram sabendo, por boatos, pois há tempos que os pés não frequentavam a casa da idosa, que a diarista ganhava importância e podia representar um risco ao futuro dos bens que lhes seriam destinados. Passaram, então, a ver d. Sônia semanalmente, revezando-se entre si no sacrifício, a fim de avaliar o negócio de perto e garantir que d. Sônia não fizesse besteiras por causa da idade avançada. Aproveitavam, também, para fazer maledicências a respeito de Albertina. Segundo eles, essa não seria uma pessoa confiável, de modo que era um risco considerável manter pessoa com tão má reputação em casa habitada somente por uma idosa indefesa.

   D. Sônia silenciava diante de tais comentários. Apenas ouvia os parentes, enquanto tomava sua xícara de chá no deck que dava de frente para a piscina. Não refutava nem uma nem outra palavra, e assim, os parentes julgavam estar abrindo os olhos da velha e conquistando a confiança dela. E a relação, antes opaca e inexistente, passou a ficar colorida e próxima. Jantares aos parentes foram dados, ocupando, enfim, a imensa mesa da sala de jantar. Todos riam alto, comendo e bebendo com satisfação, tirando proveito do dinheiro que num passado não tão distante “repudiaram”.

   Mas numa manhã de sábado ensolarado, a idosa voltou a ficar doente. Era folga de Albertina, então, estando com a casa cheia de familiares, d. Sônia pediu que lhe servissem o café da manhã na cama. Não demorou para que uma bandeja bem-servida fosse colocada à disposição. Em seguida, pediu ajuda para fazer a toalete, ao que a sobrinha se apresentou, levando a tia e ajudando-a no lavabo. Mais tarde, sentiu fortes dores abdominais, pelo que pediu que alguém pegasse uma fralda geriátrica no armário e colocasse nela, evitando, assim, uma sujeira desagradável na cama de lençóis importados. A fralda não tardou a aparecer, mas dessa vez, ninguém se prontificou em ajudar a idosa, afirmando não terem experiência no assunto.

   O dia seguinte foi mais embaraçoso. D. Sônia sequer conseguia comer sozinha e derrubava desastrada a comida que tentavam lhe dar, deixando a roupa uma completa imundície. Agora, nem em pé conseguia ficar, e, na ausência da fralda, os lençóis deixaram de ser brancos para dar lugar a um tom amarelo e marrom, úmidos e malcheirosos. Um dos parentes, rendido, disse afinal:

   - Chamem a diarista. E chamem logo.

   A segunda-feira começou radiante para d. Sônia. A casa voltou a ser habitada apenas por ela e por Albertina, dedicada e solícita, como sempre. A velha levantou-se com plena disposição. De roupa limpa e asseada, nunca se sentira tão bem antes. O mal-estar de um idoso, d. Sônia o sabia, era um meio único e infalível de revelar grandes verdades.



Cristiane Krumenauer é autora de Atrás do Crime e Chamas da Noite (romances), Memória, Imaginação e Narração (crítica literária) e da série Contos da Namíbia (contos de suspense)