Atrás do Crime - conquistando os leitores do Brasil

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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A EsPeRanÇa na CaCHoRRa


    E essa agora? O marido aparece em casa, tentando agradar, portando uma shih tzu no colo de apenas 45 dias? “É presente de Natal”, ele diz, derretido pela filhote, que chora fraquinho, baixinho, e só para de resmungar para tentar arrancar um filete ou dois de carne dos dedos que a seguram.

   Eu apenas sacudo a cabeça, temendo o quanto posso sofrer por causa daquilo. E, tentando remover a ideia do marido de ter uma cachorrinha, conto-lhe sobre meu triste passado, quando tinha apenas dez ou onze anos:

   - Você sabe que eu já tive cachorros antes. Um deles, o Toquinho, subiu a escadaria correndo e começou a arranhar a porta da cozinha para que minha irmã e eu a abríssemos. Ele estava desesperado, gania por algum motivo que não sabíamos. Quando abrimos a porta, o cachorro se escondeu debaixo da pia, respirando de boca aberta, arquejante. Aí, caiu a ficha: um vizinho havia envenenado o bicho. O pior de tudo é que o animalzinho pediu ajuda, e não pudemos fazer nada... O veneno foi corroendo-o, queimando-o por dentro. Sofreu muito antes de morrer e, por isso, não quero mais animal algum.

   O marido, atento à narração, volta a acariciar a pequena shih tzu, mantendo o silêncio. Então, após refletir por alguns segundos, conclui:

   - Ah, entendi. A sua decepção, na verdade, não foi com o bichinho-cachorro, foi com o bicho-homem... tão cruel a ponto de envenenar seu animal. Você e essa mania de confundir as coisas...

   Na verdade, não. Eu só não queria sofrer daquele jeito... de novo. Mas, enfim, enquanto eu remoo umas sombras do passado, a shih tzu, agora no chão, vem para mim, louca pela possibilidade de morder os dedos do meu pé. Rio, sentindo cócegas... E me esforço para mudar minha cabeça, minha visão realista e sofrida de mundo. Enquanto a pequena destrói minhas chinelas Havaianas, provocando risos na família toda, digo em voz alta:

   - Já é hora de esquecer o passado e a crueldade do mundo. Estamos em dezembro, mês de se esperar por algo melhor da vida.